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POUCO INTELIGENTE OU SUPER INTELIGENTE

Dificuldades de jovens e crianças com os rótulos que pais e professores inventam.               

 

                        Estaremos iniciando no mês de outubro a campanha Ansiedade e Depressão em Jovens e Crianças, um assunto há muito negligenciado por todos: existem poucos estudos sobre tratamento de doença mental em criança, tanto no que se refere a medicamentos como tratamento.

Os tratamentos disponíveis são para adultos e aplicados em crianças, estas informações foram fornecidas no último congresso do NAMI-USA, mas todo mundo da área da saúde mental já sabia. Nas escolas professores não recebem qualquer treinamento ou informações para perceber se jovens e crianças podem estar apresentando um problema de ansiedade e depressão e, no geral, crianças com estes problemas são vistas ou como bagunceiras ou como preguiçosas, ou fazem muito barulho ou não querem fazer nada, os pais do mesmo modo não possuem informações suficientes sobre o assunto. Nos Estados Unidos escolas oferecem um ambiente propício para jovens passando por este tipo de problema, aulas separadas, psicólogos, às vezes assistência em casa, nós estamos caminhando na direção da transmissão de informações para pais, escolas e público em geral, estamos longe de uma situação ideal.
Eu já contei a história deste garoto, mas vale a pena falar nele novamente: com nove anos, depois da via sacra a médicos, neurologistas, psiquiatras e psicólogos, foi indicado para mim, pois diziam que o menino devia ser meio retardado, e queriam que fizesse meditação comigo.

Nos primeiros vinte minutos da conversa com ele, notei que tinha um vocabulário muito acima do normal, contou-me que desmontava rádios e outros eletrônicos, por curiosidade e montava de novo. Mas tinha tomado bomba na escola no ano passado e estava indo mal novamente na escola. A professora, pelo que contavam os pais, vivia dizendo o garoto era um problema, não aprendia nada e que ia tomar bomba de novo. Pedi a uma clínica de psicologia em Franca que fizesse um teste para ver o QI do garoto.

Prontos os resultados, ficou claro que ele estava catalogado no teste com um nível de inteligência de um garoto de dezoito anos. Que surpresa para os pais! Na próxima reunião na escola, quando a professora começou a falar em termos pejorativos sobre o menino, a mãe, toda orgulhosa, tirou o teste da bolsa e disse a ela: - O problema é que meu filho é muito inteligente para sua sala de aula, ele tem um QI elevado e não tem nada de retardado, é super inteligente.

Bem, não precisa nem ser muito esperto para saber que nosso pequeno herói melhorou as notas depois de aprender que mesmo sendo a matéria chatíssima para ele (enquanto a professora falava de geometria ele estava pensando na velocidade de uma espaçonave no céu) tinha de seguir para conseguir o diploma, passou de ano só com As - naquele e foi transferido para uma escola que fosse mais um desafio para ele.

É lindo saber destes fatos e percebermos que coisas muito pequenas podem fazer milagres, mas Madre Teresa já dizia: Não podemos realizar grandes coisas, podemos realizar pequenas coisas com um grande amor.  

Estes dias encontrei um garoto que está vendo uma das psicólogas do APOAIR na sala de espera, começamos a conversar e eu perguntei por que ele estava lá: - É que sou diferente de minha família, disse ele, não combino muito com o padrão deles. E eu perguntei: Quem te disse que você tem de ser igual a alguém, que o comportamento de fulano é melhor do que o seu? Ele me olhou surpreso e disse: É eu nunca havia pensando nisto desta forma.

Este garoto está lendo O Senhor dos Anéis, uma literatura dificílima e eu não me preocuparia com alguém que lê um livro destes. A meu ver não existe um problema com o garoto e sim com o mundo que determina que as coisas devam ser assim ou assado, senão, não é legal. Tenho certeza que ele vai só precisar que a psicóloga mostre a ele seus valores próprios para que possa encontrar seu caminho e não ter se destrua pensando: Sou diferente, não sou normal! E comece a pensar: - Sou diferente, tenho algo a mais e me distingue de outras pessoas e me abre possibilidades infinitas!

No final de nossa conversa perguntei a ele se tinha lido Fernão Capelo Gaivota; ele disse que sim, mas que não tinha entendido bem a estória. Eu contei-lhe que o Fernão era uma gaivota diferente, com ideais superiores, um visionário, e por isto tinha sido expulso do bando, simplesmente por ser diferente, mas que ele nunca desistiu e acabou sendo um grande líder para seu bando.

            Quantos jovens estão sofrendo por terem um potencial maravilhoso e mal aproveitado, quantos se suicidam por não saberem lidar com o pânico ou a depressão, quantos se voltam para as drogas, por não saberem que existe ajuda?! Vamos tentar mudar um pouco isto!

Nossa campanha de Depressão em Homens foi um sucesso e conto que esta também seja, esperamos atingir o máximo de pessoas possível, queremos falar nas escolas, fazer palestras com profissionais que possam fazer a diferença na vida dessas crianças diferentes, mas maravilhosas.

Desta forma como sempre, vou vendo a beleza em cada pequena coisa que a vida me trás, me encantando com a histórias de amor que venho aprendendo no APOIAR, encanta-me ver a união de nossa equipe e o fruto deste amor que aprendemos a cultivar tem iluminado a vida de muitos tirando-os da escuridão e tornando suas vidas dignas de serem vividas.
Paz para você!

            Silvana Prado

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