1 2 3
Artigos

Estresse e Depressão infantil

Chafic Jbeili é psicanalista e psicopedagogo. Autor do livro “Superando o desânimo – antes que ele supere você”

No decorrer da vida aprendemos a conviver, controlar e administrar os problemas que nos sobrecarregam tais como: desavenças familiares, separações, mudança de lares, ameaças de desemprego, apertos financeiros, dívidas, restrições alimentares, assaltos, seqüestros, entre outras perturbações e que nos causam ansiedade (medo) constante. Desta forma, sem querer, transmitimos para as crianças mais próximas de nós tudo aquilo que estamos sentindo.

Pensando em como essa rotina pudesse afetar as crianças, no ano de 1996 foi organizada, em Atlanta, uma conferência global sobre Desenvolvimento Infantil. No encerramento do evento foi formulada e amplamente divulgada uma lista básica endossada pela UNICEF, Organização Mundial de Saúde e várias ONGs que trabalham diretamente com crianças, como sendo princípios fundamentais ao crescimento biopsicosocial saudável de uma criança e que contempla a satisfação básica de suas necessidades incluindo afeto e segurança. A essência dessa lista é a criação e manutenção de um ambiente saudável e tranqüilo para que a criança se desenvolva. No entanto, parece que estes princípios sucumbiram às exigências da modernidade e nossas crianças sofrem as conseqüências, entre elas o estresse e a depressão.

Cada vez mais bebês estão sendo “desmamados” antes dos dois anos de idade e, além de serem privados das benesses do leite materno, alguns bebês associam o desmame com a rejeição, agravando o medo que eles já sentem naturalmente, podendo causar estresse, depressão entre outros transtornos psicossomáticos.

Outro ponto a considerar é que, com a evasão domiciliar das mães, ora por mero modismo, ora pela necessidade real de um complemento no orçamento familiar, as crianças que antes gozavam da insubstituível companhia materna nos primeiros anos de vida, agora, estão indo mais cedo para as creches ou permanecem mais tempo com pessoas estranhas em ambientes estranhos. A ausência da mãe, mesmo que por uma boa causa, aflora sentimentos de aflição e angústia nas crianças. é bom lembrar que mães e filhos desenvolvem durante a gestação uma dependência mútua que se prolonga, com mais intensidade, até os três anos de idade. Quebrar abruptamente esse vínculo causa sérios prejuízos psicológicos em ambos.

A sensação de perigo, real ou imaginário, vivida pela criança faz com que seu corpo, mais precisamente as glândulas supra-renais, liberem a adrenalina necessária para mantê-la pronta para a defesa. No entanto, a adrenalina tem efeito direto sobre o coração, os pulmões, vasos sangüíneos e interfere no metabolismo do corpo prejudicando a regulação de atividades como a digestão e o sono, essenciais para a saúde da criança. A permanência constante e em altos níveis deste hormônio no organismo é extremamente nociva e pode desencadear outras doenças graves, inclusive o TDI.

Embora se manifeste de forma diferente na criança, o TDI ou Transtorno Depressivo Infantil, é uma desordem mental capaz de pôr em risco vários aspectos de seu desenvolvimento e prejudicar não apenas sua interação social, mas, também seu desenvolvimento cognitivo. Os sinais mais comuns de TDI são: alteração do apetite, alteração de peso, irritabilidade, agressividade, queixas de dores inespecíficas e sem causa aparente, choro escandaloso, tristeza, desinteresse por objetos ou atividades rotineiramente prediletas e queda significativa no desempenho escolar. Mas é preciso haver um conjunto destes sintomas antes de diagnosticar depressão. Caso a criança já venha apresentando, há mais de 10 dias, três ou mais destes sinais procure orientação médica para um diagnóstico preciso.

Estudos detectaram a incidência de depressão na ordem de 0,9% entre os pré-escolares; 1,9% nos escolares e 4,7% nos adolescentes (Kashani, 1988 apud Weller, 1991). Estudos de Rutter, Tizarde e Whitmore (1970) começaram a aportar uma prevalência da Depressão Infantil em aproximadamente 1% das crianças de 10 anos. Uma outra pesquisa mais recente, realizada por José Luis Pedreira Massa, na Espanha, indica que 9% da população geral infantil menor de 12 anos sofre de depressão. (Ballone)

Mesmo que os filhos fiquem com pessoas de confiança e extremamente cuidadosas, ainda assim eles irão sentir profundamente a falta da mãe. Os pais precisam amenizar os efeitos de suas rotinas melhorando a qualidade do tempo que se dedicam às crianças. Ainda que o bebê não entenda as palavras, ele pode muito bem perceber que é amado através do tom de voz e das expressões dos pais, pois, até os seis meses de idade as crianças tem uma apurada e sofisticada audição e são especialistas em “ler” nossas micro-expressões faciais. Por isso, os pais devem transmitir paz, confiança, alegria e amor em suas palavras e gestos. Os pais podem até falar com seus bebês sobre suas preocupações e medos, mas devem falar com tom de esperança e ar de confiança. Os bebês sentirão isso e ficarão mais relaxados! Esta estratégia também vale para as crianças maiores.

Para amenizar o estresse na criança e prevenir seus devastadores efeitos é preciso que pais, mães, babás e demais responsáveis criem ambientes mais tranqüilos e serenos. Os pais devem tomar mais cuidado para não discutir problemas do dia a dia na frente de seus filhos, para que eles não se sintam “pesados” para a família. Dê atenção, fale baixo e suave, gesticule pouco e, se possível, pratique shantala na criança ao som de uma música tranqüila. Adquira o hábito de dizer para a criança, olhando firme em seus olhos: “Fique tranqüila, o papai (ou a mamãe ou a titia) está aqui”. Não melhorando os sintomas, procure ajuda do médico ou psicólogo.

Exceto pela questão genética e orgânica, apropriadamente tratada pela psiquiatria, Estresse e Depressão se combatem através de mudança de hábitos e de estilo de vida, preferencialmente com apoio, orientação e acompanhamento psicológico.

A criança precisa ser poupada dos problemas que não podem resolver, devem se sentir seguras sem contudo serem superprotegidas. Mas isso é história para um outro artigo! 

voltar